Existe um problema com as prestações sociais e com a pensões em especial
que é preciso enfrentar, não tem é a ver com as reformas “milionárias”.
Ao longo da nossa vida activa fazemos descontos ao salário que são um
seguro para várias situações ou percalços: desemprego, baixa médica, licença de
maternidade/paternidade, invalidez... e por fim para termos um rendimento no
momento da reforma, quando deixamos de trabalhar. Recebemos menos durante a
vida activa para termos algo no momento da reforma.
No caso das pensões, num mundo ideal o dinheiro que descontamos seria
investido e acumulado, para ser utilizado a partir do momento da reforma. E a reforma deverá depois corresponder àquilo
que foi descontado. Essa relação não é linear (a pessoa que recebeu subsidio de
desemprego, a mulher que usou licença de maternidade, ..., não vão receber
menos por isso!) mas tem de existir alguma relação sob pena de as contas não
baterem certo. É aqui que está o problema.
O desequilíbrio pode nascer e agravar-se por serem os trabalhadores de hoje
que descontam para pagar as reformas de hoje, ao invés de terem os seus
descontos segregados geracionalmente. Num mundo com a relação entre activos e
reformados estável não é problemático, mas numa dinâmica de aumento de
reformados versus activos isso permite manter níveis de pensões hoje que são
eventualmente incomportáveis no futuro para quem se vier a reformar nas mesmas
condições.
Com o aumento da esperança de vida o período durante o qual descontamos é também
menor face ao período em que vamos receber, e só existem duas formas de
resolver o problema. Aumentar a idade de reforma ou reduzir o montante das
pensões. A luta contra a demagogia, a da austeridade (reformas milionárias para
as quais não se descontou) e a do fomento (direitos adquiridos como argumento
auto-suficiente), não pode impedir que se discuta o problema da adequação do
valor das pensões ao valor dos descontos. Quando os descontos não cobrem as
pensões, e há um desequilíbrio no sistema, não basta dizer que deve ser o
estado a cobrir a diferença. O estado não tem outro dinheiro que não o nosso, e
o nosso dinheiro é finito.
Os reformados de hoje têm o mesmo direito às suas reformas que os activos
de hoje têm à expectativa de vir a receber a sua pensão no momento da vida em
que mais precisarão, como um direito por aquilo que também descontam.
Como disse anteriormente, uma terceira solução, a mais fácil, é nivelar as
pensões pelos valores mais baixos. Mas pelos mesmo motivos, dentro de cada
geração é necessário manter essa relação entre descontos e pensão. Ainda que
também aqui possa haver progressividade, quem desconta mais deve receber mais,
e apontar o ajustamentos a todos as pensões acima dos valores mínimos é errado,
injusto e contraproducente.
Tal como quanto ao estado social no seu todo, a adequação do valor das
pensões ao valor dos descontos é a melhor garantia de continuidade de algo que
tanto acarinhamos: um modelo de sociedade em que abdicamos de algo num período
da vida activa (descontos) para uma rede mínima de protecção e a segurança de
receber um rendimento mais tarde.