quarta-feira, 13 de março de 2013

Amargo de boca

A morte de Hugo Chavez lembra-nos como o corpo não acompanha a vontade, e interrompe um percurso que deveria acabar pela política e não pela doença. Todo o luto leva ao limite o culto de personalidade que o próprio cultivou em vida, e adivinho eu que explicará para muitos as dificuldades futuras. Mas a herança que deixa é menos romântica.

Chavez não era um democrata. A democracia começa nas eleições e continua no respeito pelas instituições, leis e regras, pela separação de poderes, pelos direitos e liberdade de actividade das oposições, pelo debate e escrutínio dos governantes.

Mas era popular. Criava empatia e tinha metade da Venezuela genuinamente consigo. Quem procura alternativas ao capitalismo e economia de mercado, sente-se atraído pela aura da revolução bolivariana, que desafia os poderosos e devolve riquezas aos mais carenciados, que pretende mudar e criar uma nova via. Mas olhando um pouco melhor a imagem é embaraçosa: a concentração de poder numa só pessoa, os amigos Kadhafi, Hamadinejad, Assad; o patrocínio à FARC; o uso do estado e dos meios do estados como sua propriedade. O que fica é mais um projecto de poder do que ideologia ou pensamento. Talvez por isso será tão díficil continuar sem Chavez, porque o chavismo tem mais a ver com Chavez do que qualquer outra coisa.

Para as várias esquerdas alternativas deve ser um amargo de bocado ver a verdadeira revolução bolivariana, como a cubana, a chinesa, e restantes alternativas ao sistema político e económico ocidental. Ser contra é fácil, ter alternativa é pior. À falta de melhor, deixemo-nos estar...

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