quinta-feira, 27 de junho de 2013

Teixeira dos Santos e a "narrativa" socialista

Continua muito por esclarecer sobre o período desde o PEC IV até ao pedido formal de resgaste de Portugal. A entrevista de ontem de Teixeira dos Santos à TVI não foi um grande contributo, pela preocupação em resguardar Sócrates e pelo politicamente correcto. É sabido que na altura o entendimento entre os dois era menos harmonioso, e foi Teixeira dos Santos quem funcionou como uma espécie de voz da razão dentro do governo. Vale a pena discutir algumas coisas ditas na entrevista.

A principal é a de que com o PEC IV Portugal tinha garantido o apoio da Comissão, da Alemanha e do BCE, e só o seu chumbo precipitou a deterioração das condições de financiamento e pedido de resgate. Esta é desde aí a "narrativa" do PS para explicar como foi a crise política que nos levou para a banca rota e o resgate, e Teixeira dos Santos não mostrou dúvidas em como os nossos problemas estavam resolvidos com o PEC IV. 

Não podemos reconstruir o passado mas se olharmos com atenção esta teoria vários problemas. Depois do PEC I, PEC II e PEC III, o que nos leva a pensar que o PEC IV iria durar muito mais tempo? Convém lembrar que com PEC IV o nosso desequilibrio orçamental seria resolvido em 2 (!) anos, quando agora é consenso que os 3 anos do memorando da Troika são irrealistas.  Desde esse momento não parou de mudar para pior a avaliação sobre o nosso ponto de partida em termos de dívida e défice, e não pararam também as surpresas negativas sobre o andamento da economia, da receita fiscal e mesmo da despesa.

O que nos pode levar a pensar que com o PEC IV aprovado não seria uma questão de tempo para vir o PEC V, o PEC VI, e por aí adiante, cada um deles com mais medidas de austeridade? Sabendo o que sabemos hoje, é díficil pensar que não acabaríamos por ter de fazer um pedido formal de resgaste, como a própria Itália e Espanha estiveram perto (imaginem Portugal!). E se por milagre tivessemos evitado o pedido formal, cada um desses PECs viria com condições semelhantes à de um resgate e às quais não seria possível fugir. 

Custa-me a perceber como esta "narrativa" pode ser tratada com tanta benevolência...

Outro aspecto escamoteado na entrevista foi a irresponsabilidade na gestão do timing do pedido de resgaste. Sabendo o que sabemos hoje, é claro como um pedido de regaste feito largos meses antes teria protegido melhor os nossos interesses. Mas na altura não sabíamos tudo e é verdade que o governo queria e acreditava em soluções alternativas ao pedido de resgate, e daí ter esticado a corda. Mas depois do chumbo do PEC IV, depois da demissão do governo, alguém NESSA altura podia ter dúvidas de que o resgate era inevitável? 

Mas NESSA altura o que guiou Sócrates foram as eleições, à custa de tudo. As semanas que passaram até Sócrates finalmente ter sido encostado à parede pela realidade (e reconheça-se, por Teixeira dos Santos), mostram como a política se pode sobrepôr aos interesses de um país. A negociação do memorando na iminência de ruptura nos pagamentos de salários e pensões por parte do estado, da banca rota, talvez explique algumas diferenças entre o nosso programa de assistência e o da Irlanda.


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