Antes unanimidade contra a invasão do Iraque, porque falta a sacrossanta legitimidade no direito internacional. Agora silêncio sobre a intervenção na Líbia.
A insurreição começa de surpresa, ajudada pela envolvente na zona e alastra rapidamente. O regime reage, usa dinheiro e mercenários, e a relação de forças volta a mudar. A cada pequeno passo na reversão de forças, os media contrapõem um revés menor e incerto com uma persistência certa da insurreição, como quem relata o seu país a jogar (e perder) contra o outro. No subentendido das notícias, filtrado o wishfull thinking e wishfull reporting, vê-se tudo a mudar. Em pouco tempo acabam as dúvidas e o regime está a caminho de Bengazhi. Prepara-se para esmagar a insurreição com armas e violência.
Os países ocidentais, Reino Unido e França à frente, correm contra o tempo por um mandato do Conselho de Segurança da ONU para intervir e proteger a população. No último minuto é conseguido e os aviões do ocidente começam a intervenção. Em poucos dias é detido o avanço das forças de Kadaffi sobre a cidade, vemos o armamento pesado desfeito nas estradas, a população a salvo.
Missão cumprida? Ainda não…
Agora começa a verdadeira intervenção. Ataques aéreos às várias posições do regime, destruição das suas defesas e capacidade de ataque. Com este autêntico Às de trunfo na manga, e o relato em forma de epopeia dos media sobre a insurreicção, adivinham-se os rebeldes a contra-atacar, o regime a cair em barulho de cartas, um barco a afundar com todos a saltar para fora.
A realidade não colabora. O regime ainda avança em alguns locais, outros deixa cair a muito custo, e da insurreição pouco surge para ocupar o vazio gerado com a aviação.
Sabe-se de atropelos dos insurrectos a direitos humanos e perseguição a populações que ocupam, porque tinham ficado do lado do regime. Ignorados pelos media. Não são fáceis de encaixar na epopeia da primavera árabe.
Intensificam-se os raides, faz-se consultoria de guerra aos insurrectos. A pouco e pouco a máquina de guerra ocidental consegue (a custo) guiar os insurrectos a avanços, qual ventriluco. Estamos a falar de armas, informações, estratégia, tudo menos homens no terreno. Kadafi tinha um curriculum de violência, terrorismo, nepotismo, mas também líbios do seu lado. O que vimos foi uma parte do país com a outra. O mandato é para proteger as populações, a missão é derrubar Kadaffi.
Surpreende como durante meses os avanços são pequenos e se chega a um impasse entre regime e insurrectos/NATO. Mantido até se precipitar a queda de Tripoli e depois um a um os bastiões do regime. No fim, a coluna militar em que Kadafi fugia é detectada por aviões ocidentais, destruida e denunciada a insurrectos, que terminam o trabalho como as imagens finais mostram.
Se não deixa pena a personagem, deixa pena o método.
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