segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A política nos EUA (2)

As primárias como método de escolha dos candidatos presidenciais faz toda a diferença. Existe um partido e é preciso organização e dinheiro para fazer as campanhas. Mas no fim a condição para se ser escolhido é a capacidade dos candidatos de criarem empatia e ligação com os seus eleitorados. O caciquismo, os sindicatos de votos e o controlo do aparelho por si valem pouco. Não se escolhem lideres com golpes palacianos em congresso.

Os debates entre os candidatos às primárias republicanas, apesar de aqui chegarem como caricatura, são um prazer pela riqueza de opiniões e visões. Aqui não existe "centrão". O ponto comum entre todos os candidatos é a importância da iniciativa privada, do empreendorismo, de abrir o caminho para todos lutarem e prosperarem pelo seu trabalho. A desconfiança com o governo, a regulação, a intromissão na vida individual das pessoas. Porque elas devem ter  o caminho e o incentivo para dar o seu melhor e fazer o seu futuro. E nisso é profundamente americano. Nas medidas em concreto nem sempre é óbvio como se vai diminuir o estado (Bush por exemplo não o fez…) mas a ideia e a convicção está lá. E é partilhada pelos americanos como não é pelos europeus.

Depois há uma fluidez nos partidos que os enriquece. O Tea Party, quase um partido dentro do partido, mas também ele sem organização rígida, nasceu e ganhou influência pelo debate. Qual é o partido português com tendências e actividade internas movidas por ideias?

Nestas primárias podemos ver um candidato que defende a saída dos teatros de guerra, é contra o estado com agenda moral, e quer acabar com o Banco Central. E ao qual se pergunta se não irá concorrer for a do partido. Se o "establishment" não gosta de um candidato pode prejudica-lo, mas pela força do debate.

Os partidos existem como enquadramento da política, mas o palco é para o individuo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Flexibilidade

O acordo de concertação social é criticado por muitos, mesmo moderados, por ser desequilibrado e enviesado para os interesses dos patrões. E facilitar o despedimento dos trabalhadores. Pergunta-se a quem quer o acordo: "Acham mesmo que é este acordo que vai criar emprego? Vem abrir as portas a despedir pessoas que depois não conseguem voltar a encontrar trabalho".

O acordo não liberaliza o despedimento, longe disso, mas abre algumas portas e flexizibiliza alguns aspectos, como o banco de horas. É das medidas mais elementares: permitir que em actividades sazonais ou irregulares empresa e trabalhador possam acordar que se trabalhe mais horas durante um período e compensar no outro. Com benefício para ambos.

Depois falta perguntar quantas empresas deixarão de fechar as portas por terem mais flexibilidade para ajustar a sua força laboral à sua realidade. E quantos empregos não deixam agora de ser criados pelo receio de criar um vínculo muito dificil de rescindir?

A flexibilidade coloca o foco em diminuir os custos, barreiras e receios das empresas na criação de novos empregos, e é um caminho muito importante a fazer.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A política nos EUA

A política nos EUA está dividida entre Democratas e Republicanos, e ambos têm verdadeiro apoio e representatividade entre os americanos. É muito interessante de acompanhar porque nos EUA, mais do que na Europa, existe debate sobre os temas com diferenças claras entre os lados.

Este debate é transmitido pela imprensa europeia como o da civilização contra o fanatismo obscuro; o Democrata anda pelas ruas de Nova Iorque e vê as notícias no iPad, o Republicano vai à igreja da terra de espingarda e na Pick Up. Na europa Obama é um salvador por nos proteger desta América, mas nos EUA é um presidente criticado e contestado como os antecessores.

As peças do Luís Costa Ribas na SIC são um bom exemplo deste enviesamento, lamentável por vir disfarçado de jornalismo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Líbia - outra história

Antes unanimidade contra a invasão do Iraque, porque falta a sacrossanta legitimidade no direito internacional. Agora silêncio sobre a intervenção na Líbia.

A insurreição começa de surpresa, ajudada pela envolvente na zona e alastra rapidamente. O regime reage, usa dinheiro e mercenários, e a relação de forças volta a mudar. A cada pequeno passo na reversão de forças, os media contrapõem um revés menor e incerto com uma persistência certa da insurreição, como quem relata o seu país a jogar (e perder) contra o outro. No subentendido das notícias, filtrado o wishfull thinking e wishfull reporting, vê-se tudo a mudar. Em pouco tempo acabam as dúvidas e o regime está a caminho de Bengazhi. Prepara-se para esmagar a insurreição com armas e violência.

Os países ocidentais, Reino Unido e França à frente, correm contra o tempo por um mandato do Conselho de Segurança da ONU para intervir e proteger a população. No último minuto é conseguido e os aviões do ocidente começam a intervenção. Em poucos dias é detido o avanço das forças de Kadaffi sobre a cidade, vemos o armamento pesado desfeito nas estradas, a população a salvo.

Missão cumprida? Ainda não…

Agora começa a verdadeira intervenção. Ataques aéreos às várias posições do regime, destruição das suas defesas e capacidade de ataque. Com este autêntico Às de trunfo na manga, e o relato em forma de epopeia dos media sobre a insurreicção, adivinham-se os rebeldes a contra-atacar, o regime a cair em barulho de cartas, um barco a afundar com todos a saltar para fora.

A realidade não  colabora. O regime ainda avança em alguns locais, outros deixa cair a muito custo, e da insurreição pouco surge para ocupar o vazio gerado com a aviação.

Sabe-se de atropelos dos insurrectos a direitos humanos e perseguição a populações que ocupam, porque tinham ficado do lado do regime. Ignorados pelos media. Não são fáceis de encaixar na epopeia da primavera árabe.

Intensificam-se os raides, faz-se consultoria de guerra aos insurrectos. A pouco e pouco a máquina de guerra ocidental consegue (a custo)  guiar os insurrectos a avanços, qual ventriluco. Estamos a falar de armas, informações, estratégia, tudo menos homens no terreno. Kadafi tinha um curriculum de violência, terrorismo, nepotismo, mas também líbios do seu lado. O que vimos foi uma parte do país com a outra. O mandato é para proteger as populações, a missão é derrubar Kadaffi.

Surpreende como durante meses os avanços são pequenos e se chega a um impasse entre regime e insurrectos/NATO. Mantido até se precipitar a queda de Tripoli e depois um a um os bastiões do regime. No fim, a coluna militar em que Kadafi fugia é detectada por aviões ocidentais, destruida e denunciada a insurrectos, que terminam o trabalho como as imagens finais mostram.

Se não deixa pena a personagem, deixa pena o método.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os ricos que paguem

Queremos os ricos a investir, apostar na produção, criar emprego. Quem o fizer bem vai acumular bens, ter um salário alto ou lucros elevados. Depois olhamos com inveja e perseguimos quem tem bens, salários altos ou lucros elevados. Fiscalmente, e não só. Porque é imoral enriquecer quando o resto do país empobrece, ainda que esse enriquecimento ajude o país a não empobrecer.

Claro que o investimento, a aposta na produção e a criação de emprego é feita por um gestor que decide racionalmente e optimiza os recursos de que dispõe. Caso contrário vai deixar de ter recursos e capacidade de fazer. A um gestor de uma empresa pede-se que defenda a empresa sendo bom gestor; defender os seus accionistas, clientes, empregados. Aplicar os seus recursos onde vê ganhos e desinvestir onde vê perdas. Fazer o contrário da má gestão que destrói valor e, em última instância, empregos.

Há uns tempos alguns gestores anteciparam a distribuição de dividendos aos seus accionistas por a tributação dos mesmos ir aumentar, e foi a ofensa geral. E o que dizer dos consumidores que anteciparam a compra de carro de cada vez que o imposto automóvel ia aumentar, que moram na fronteira e vão a espanha atestar porque é mais barato, que deduzem as despesas de saúde e educação para pagar menos impostos, que compram produtos estrangeiros porque são mais baratos ou melhores? Não estarão eles também a ser racionais e procuram gerir a sua "empresa" da melhor forma possível? Sim, é diferente, eles são ricos, eles podem; "nós" não.

Agora um gestor decide deslocalizar a sua sede (não a sua actividade) para outro país e foi o fim do mundo. Não interessa que o faça com os motivos de uma boa gestão, não interessa olhar aquilo que ele nos aponta, não interessa pensar o que devíamos mudar para  conseguirmos reter e atrair quem tem riqueza e pode investir.

Não. Vamos  correr atrás do senhor, boicotar a empresa, debater como a culpa dos problemas é de pessoas assim, meter a cabeça na areia. Os ricos que paguem.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Debate que faz falta

Assim o debate PS / Governo gira à volta  de o governo decidir 2 cortes e o PS pedir apenas 1, o governo aumentar um imposto e o PS defender meio, o governo aumentar uma taxa e o PS ser contra. É um falso debate.

A pergunta é: Assinámos o memorando em que nos comprometemos com um nível de défice. Vamos cumprir?
 
Se Sim (é um debate a ter, mas outro),  a partir daí o que faz sentido é discutir opções com impacto neutro no orçamento. Neste momento o governo apresenta as medidas como  incontornáveis, que não são. Mas a oposição é contra sem propor a alternativa para compensar o impacto orçamental e preservar a meta, que essa sim é incontornável.

Quando se quer cortar apenas um subsídio à função pública, é preciso dizer onde se vai buscar a receita perdida. Quando se esta contra a subida do IVA na restauração, é preciso dizer onde se vai buscar a receita perdida. Estamos comprometidos com as metas, mas temos margem para decidir a forma de as atingir. Este é o debate que faz falta e não se vê.