sexta-feira, 22 de março de 2013

Sócrates na RTP

A grande entrevista de Sócrates vai ser um sucesso de audiências, e o programa de comentário seguido com toda a atenção (a começar por António José Seguro). A RTP1 é uma televisão generalista como a SIC e a TVI, que não se distingue pelos conteúdos oferecidos mas pelas baixas audiências e o défice que diariamente pagamos. Nesta perspectiva é um trunfo ter conseguido Sócrates como comentador.

A discussão e petições sobre se Socrátes deverá ter um programa de comentário na RTP tem algo de bizarro... se um comentador é interessante jornalisticamente, se tem potencial para conseguir audiência, qual é o critério para o excluir? Ter sido 1º Ministro? Tem deixado o país como deixou? Não consigo pensar em algum motivo que não seja assustador.

As televisões e os jornais devem pautar-se por critérios jornalisticos e ética. O interesse jornalístico é óbvio, e não vejo qual o problema ético em deixar falar quem quer falar e tem quem o queira ouvir. Se um ex-governante deixou má herança, essa avaliação deve ser feita por nós leitores e espectadores, e não pela comunicação social excluindo-o do espaço público. E isso aplica-se a televisões privadas e públicas. 

Se o potencial de audiência existe, é porque há interesse em ouvir o que Sócrates tenha a dizer, e eu sou um deles.



quarta-feira, 13 de março de 2013

Uma boa notícia (2)

Quem tenha lido o meu post anterior "Uma boa notícia" pergunta: mas qual é a boa notícia afinal? Pois. Era a candidatura de António Costa a líder do PS, que acabou por não ser. A estória é patética e mostrou o pior que a vida política nos pode mostrar. Os vários meninos do aparelho a entrar evocando falta de lealdade, fidelidade, estabilidade (não deviam as polémicas pretender ao menos ter substância de ideias e políticas?), e uma noite acabada em abraços mal o volte-face se deu. As declarações à saída de António José Seguro, o grupo de trabalho para discutir não se sabe o quê... O cúmulo da hipócrisia.

Amargo de boca

A morte de Hugo Chavez lembra-nos como o corpo não acompanha a vontade, e interrompe um percurso que deveria acabar pela política e não pela doença. Todo o luto leva ao limite o culto de personalidade que o próprio cultivou em vida, e adivinho eu que explicará para muitos as dificuldades futuras. Mas a herança que deixa é menos romântica.

Chavez não era um democrata. A democracia começa nas eleições e continua no respeito pelas instituições, leis e regras, pela separação de poderes, pelos direitos e liberdade de actividade das oposições, pelo debate e escrutínio dos governantes.

Mas era popular. Criava empatia e tinha metade da Venezuela genuinamente consigo. Quem procura alternativas ao capitalismo e economia de mercado, sente-se atraído pela aura da revolução bolivariana, que desafia os poderosos e devolve riquezas aos mais carenciados, que pretende mudar e criar uma nova via. Mas olhando um pouco melhor a imagem é embaraçosa: a concentração de poder numa só pessoa, os amigos Kadhafi, Hamadinejad, Assad; o patrocínio à FARC; o uso do estado e dos meios do estados como sua propriedade. O que fica é mais um projecto de poder do que ideologia ou pensamento. Talvez por isso será tão díficil continuar sem Chavez, porque o chavismo tem mais a ver com Chavez do que qualquer outra coisa.

Para as várias esquerdas alternativas deve ser um amargo de bocado ver a verdadeira revolução bolivariana, como a cubana, a chinesa, e restantes alternativas ao sistema político e económico ocidental. Ser contra é fácil, ter alternativa é pior. À falta de melhor, deixemo-nos estar...