sábado, 22 de dezembro de 2012

Reformas Milionárias (1)


Segundo o primeiro ministro alguns reformados e pensionistas “descontaram para ter reformas, mas não para terem aquelas reformas”. Se esta frase se dirige ao Presidente da República e pessoas com reformas realmente elevadas, é pura demagogia. Não são essa meia dúzia de pessoas que têm impacto no défice nem é neles que se vai obter a poupança pretendida com a proposta de tributar os rendimentos dos pensionistas. Na verdade a tributação especial começa nos 1350 euros, e se é a esse conjunto que o Primeiro Ministro se dirige, é lamentável.

A pensões fazem parte das despesas do estado que é preciso avaliar e cortar, só que merecem alguma análise à parte pela sua natureza. Durante a nossa vida profissional descontamos para a segurança social, que não é mais do que um seguro de apoio em caso de infortúnio (desemprego, acidentes, invalidez) e depois na reforma.

Desde que me recordo que se procura proteger as pensões mais baixas focando o ajustamento nas mais altas, por exemplo acima de 1000/1500 euros, que são aumentadas abaixo dos valores da inflação, e mais recentemente cortadas. Ano a ano uma redução do seu poder de compra real que agora se acelera. É compreensível que em momento de aperto isto seja feito para poupar quem recebe pensões mínimas e qualquer euro a mais faz a diferença. Mas quando a normalidade são os momentos de aperto ficamos a caminhar para os pensionistas ganharem cada vez mais o mesmo, e isso é injusto. As pensões mais altas correspondem também aos casos em que os trabalhadores fizeram maiores descontos durante a carreira contributiva.

Vamos imaginar um trabalhador independente A que decidiu fazer maiores descontos ao longo dos anos para na velhice receber uma pensão maior, e um trabalhador independente B que decidiu fazer apenas os descontos obrigatórios. Agora ambos estão reformados e o trabalhador A recebe uma reforma mais alta, por exemplo de 1500 euros. É tão fácil nestes tempos de crise retratar este trabalhador como um privilegiado a viver desafogadamente de um direito adquirido que o resto do país, muito mais pobre e necessitado, é obrigado a sustentar...

As reformas não são um privilégio mas uma dívida do estado para com os trabalhadores pelo que estes descontam, e são aliás obrigados a descontar. E nesse sentido não são diferentes de dívida pública. Se se entende que é um privilégio receber reformas a partir de um certo montante, e imoral o estado pagá-las, o que é preciso fazer é que o estado comece por limitar o valor máximo dos descontos para a segurança social que um trabalhador pode fazer. E o trabalhador pode a partir desse montante dispor do seu rendimento e aplicá-lo em fundos de pensões privados se assim o entender. Ter o estado a receber ilimitadamente os descontos e depois lançar um ónus moral quando chega a altura de os devolver é que faz pouco sentido.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O estado que podemos pagar


A trapalhada é tanta que se perde o discernimento mas há algumas afirmações recentes de Vitor Gaspar que merecem toda a atenção.

É a despesa pública que determina o nível de impostos. Os portugueses têm de decidir qual o nível de impostos que estão dispostos a pagar, qual o estado social que estão dispostos a pagar.

As perguntas a que estamos habituados são sobre a justiça e justificação dos direitos, subsídios, protecções, serviços e apoios prestados pelo estado. E daqui passamos à ideia dos direitos adquiridos.
Quando a pergunta é qual o estado social queremos ter, queremos ter tudo e é um retrocesso perder seja o que for. Se a pergunta é sobre os impostos, achamos que são excessivos. E são. E ainda assim não chegam para pagar tudo quanto se pede do estado. Não são os carros dos ministros ou as contas de restaurantes que o explicam, nem sequer as ineficiências e “gorduras”. É preciso mudar algo e gastar menos, ou ganhar mais.

Quem não preferia resolver o problema ganhando mais? Isso é o que temos feito há 10 ou 20 anos, e o resultado está à vista. Como não existem varinhas mágicas para o crescimento, e não temos condições nem financiamento para manter défices inicialmente mais altos até o suposto crescimento chegar. Por isso temos de gastar menos, e ter o estado que podemos pagar. Temos mesmo.